
A Polícia Federal e a Receita Federal deflagraram nesta quarta-feira (4) a Operação Ifrit, com o objetivo de desarticular uma organização criminosa transnacional suspeita de movimentar mais de R$ 500 milhões em dois anos. O grupo, com base em Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai, é investigado por tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro e corrupção de agentes públicos em Mato Grosso do Sul.
Estão sendo cumpridos 76 mandados de busca e apreensão e 26 de prisão — 25 preventivas e uma temporária — em sete estados: Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, São Paulo, Paraná, Rondônia, Goiás e Santa Catarina. A Justiça Federal determinou o bloqueio de até R$ 300 milhões em contas bancárias vinculadas a 170 pessoas e empresas, além do sequestro de 160 imóveis, incluindo fazendas e mansões, e 150 veículos. As ordens incluem a transferência de 11 lideranças para presídios federais e a inclusão de alertas vermelhos na Interpol para 26 investigados.
De acordo com as investigações, a organização é comandada por um núcleo familiar liderado por três irmãos. O grupo mantinha conexões com facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Primeiro Grupo Catarinense (PGC), além de atuar em parceria com narcotraficantes estrangeiros. A estrutura contava com drones, veículos blindados e bunkers equipados com armamento de guerra, como metralhadoras calibre .50 e lança-foguetes, para proteger as lideranças e garantir o controle territorial.

As drogas e os armamentos eram adquiridos na Bolívia, no Peru e no Paraguai, ingressando no Brasil pela fronteira de Mato Grosso do Sul. Parte da carga era distribuída para outros estados brasileiros, enquanto o restante era enviado para o mercado europeu, principalmente Espanha e Portugal.
Envolvimento policial e desvio de drogas
Um dos desdobramentos da operação aponta a participação de agentes de segurança no esquema. Segundo a Polícia Federal, o grupo teria desviado cerca de duas toneladas de cocaína do depósito da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), em Campo Grande.
O ex-chefe da unidade, delegado Hoffman D'Ávila, que já se encontra preso por outras apurações, é suspeito de permitir o acesso de membros da quadrilha à delegacia para substituir a droga pura por uma mistura de amido de milho e fermento. A fraude explorava falhas na fiscalização, já que os testes não mediam o grau de pureza do entorpecente substituído. A suspeita é de que o delegado tenha recebido cerca de R$ 15 milhões em propina, além de imóveis e veículos.

Outros policiais civis, militares e um policial rodoviário federal também são investigados por repassar informações sigilosas, eliminar provas e facilitar o transporte de mercadorias ilegais. Em Campo Grande, agentes da PF apreenderam um veículo Mustang, avaliado em R$ 370 mil, na residência do investigador da Polícia Civil Douglas Tobias, localizada no condomínio Alphaville. A defesa do policial informou que aguarda acesso aos autos para se manifestar e afirmou que ele está à disposição para esclarecimentos. Três policiais civis foram afastados de suas funções por determinação judicial.
Entre os alvos de busca e apreensão da operação também figura o empresário Adel Hassan Haidar, de Ponta Porã, que atua no setor de hospedagem e revenda de veículos. A participação específica atribuída a ele no esquema não foi detalhada até o momento.
Apreensões e histórico
Ao longo de quatro anos de apurações, a Polícia Federal rastreou pelo menos 12 grandes apreensões ligadas ao grupo, totalizando mais de 2,5 toneladas de cocaína e 8 toneladas de maconha interceptadas em diferentes estados.

Durante a execução da fase de campo nesta quarta-feira na Capital, equipes policiais também cumpriram mandados em uma oficina de funilaria no bairro Vila Célia. No local, 13 veículos — incluindo caminhonetes e utilitários de luxo — que estariam sob posse do grupo criminoso foram rebocados para o pátio da Polícia Federal.
Os investigados deverão responder, na medida de suas participações, por organização criminosa, tráfico internacional, lavagem de dinheiro, corrupção, peculato, falsificação de documentos, tortura e homicídio.